Marivaldo Lima
10 min readOct 3, 2022

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MÚSICA, PROFECIA e TABERNACULO DE DAVI

Então cantou Moisés e os filhos de Israel este cântico ao SENHOR, e falaram, dizendo: Cantarei ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro. Êxodo 15:1

A musica sempre fez parte do contexto histórico dos povos da terra, e não foi diferente com o povo hebreu: seus grandes feitos são, ate hoje, canções que inspiram os filhos de Deus. A bíblia esta repleta de canções de triunfos; de conquistas; de declarações de amor a Ele e, claro, de profecia. E é sobre essa última última que eu gostaria de tecer algumas palavras.

Há um relação incrível entre música e profecia. Elas caminham muito próximas e, quando feitas de modo correto diante de Deus, edificam fortemente a sua igreja. Mas, antes de abordar o tema em sua íntegra, gostaria de expor alguns conceitos, eles nos ajudam a entender o mecanismo por trás dessa linda simbiose entre música e profecia.

Uma das linguagens humanas mais utilizadas pelo povo de Deus para se expressar profeticamente é a Música

A música é, de modo geral, a arte que expressa sentimentos através do som. Ela é paradoxalmente invisível e, ao mesmo tempo, extremamente real em nossas vidas: afeta diretamente nossos sentimentos; evidencia a dor ou a alegria; incentiva-nos a guerra e acalma-nos na paz.

Se estudarmos um pouco sobre a cultura da Grécia antiga, observamos que a mitologia atribuía a música origem divina e designava, como seus inventores e primeiros interpretes, deuses e semideuses, como Apolo e Orfeu. […] a música tinha poderes mágicos, as pessoas pensavam que era capaz de curar doenças, purificar o corpo e o espírito e operar milagre no reino da Naturezahistoria da musica ocidental:Donald J Grou e Claude V. Palisca.

Também é interessante de observar, dentro da nossa reflexão sobre o tema, que só podemos desfrutar da música porque há oxigênio. O som coordenado, das notas musicais, só nos é possível desfruta-las por acesso ao oxigênio. Não ha música fora da atmosfera — além dela, só impera o silêncio. Deus nos deu a dádiva do som; isso realmente é um previlégio.
Por isso, não é difícil de observar, na música, a parcela do Divino. Ela é uma arte extremamente espiritual, tanto que há música nos céus, sendo tocada, nesse exato momento, enquanto lemos esse artigo. Assim, percebemos que, quando há um som conectado com Deus, uma música, que está unida a uma expressão profética, há, então, uma revelação da intenção de Deus. Ou seja, quando nos expressamos musicalmente dentro da perspectiva do Reino, conectados em santidade com o próprio Deus, reunidos em um ambiente sério de profecia, revelamos, em unidade, o coração de Deus para os homens.

Abordamos um pouco sobre música, agora é importante expor definição sobre Profecia. Segundo Fabio Coelho, no seu livro Não apagueis o Espírito Profecia é o ato de, através das linguagens humanas, expressar a mente de Deus. Ou seja, ao profetizarmos, estamos indicando quem ele é, o que Ele está fazendo e a quem Ele está falando.

O povo de Deus faz uso da profecia no decorrer de toda a narrativa bíblica, seja de modo a serem instruídos para o que iria acontecer ou para relatar, encorajar e instruir, os eventos que acontecera no decorrer da sua história. Ou seja, a profecia não fala, apenas, sobre o que está por vir, mas, também, sobre o que está acontecendo.

Há , dentro da narrativa bíblica, vários exemplos da simbiose entre música e profecia, um deles está em Êxodo 15, quando Moisés escreve um poema-canção registrando o triunfo do Senhor sobre os egípcios. Este é, provavelmente, um dos primeiros exemplos desta relação.

Poderemos listar outras referências a cânticos na história bíblica dos hebreus:
O cantico de Miria, a profetisa (Êxodo 15.20
O segundo cantico de Moisés (Dt 31.19, 20; Dt 32)
Os cânticos de Davi (2Sm23.1,2; 1Cr16.7)
(Lista completa encontra-se no livro Tabernáculo de Davi, Kevin J Conner)

A música acompanha a dinâmica do que Deus está fazendo

Tabernáculo de Davi
Ainda dentro dessa temática, entre música e profecia, é importante estudarmos sobre o papel da música dentro da formação da religião hebraica, ela foi um marco importante dentro da formação do Tabernáculo do Davi.

É importante ressaltar que não havia ministério de música antes do reinado de Davi. Ou seja, a música não fazia parte dos cultos religiosos dentro do Tabernáculo de Moisés. Assim, podemos afirmar que a música não era um serviço religioso dentro da perspectiva hebraica; isso só aconteceu quando o segundo rei de Israel (Davi) assumiu o controle sobre o povo.

Davi, por inspiração divina, seleciona algumas centenas de músicos para ministrar diante da Arca do Senhor — a tribo escolhida para esse serviço foi a dos Levitas. Essa tribo PROFETIZAVA AO SOM DE INSTRUMENTOS. Embora a música fizesse parte da cultura hebraica, nunca antes, na história de Israel, algo semelhante acontecera.

Em Crônicas 15–16 / Crônicas 23–25, Davi estabeleceu 24 turnos de músicos e cantores sacerdotes para servirem diante do Tabernáculo. Dos 4.800 da tribo de Levi, 4.000 louvaram ao Senhor com instrumentos. Desses, havia 288 músicos treinados devidos em 24 turnos, 12 em cada, dirigidos pelos 24 filhos de Hema, Asafe e Jedutum. O restante dos 4.000 eram eruditos. Essa era a orquestra do Templo. (Tabernáculo de Davi página 82)

Esse foi um grande marco na vida dos povos da terra, pois ele não teve apenas implicações direcionadas para o povo hebreu, mas também para todos o povos que desejavam relacionarem-se com Yahweh, que estavam, de alguma forma, inseridos na cultura hebraica. Um exemplo de pessoas que tiveram este tipo de acesso foi Obede Edom, de Gate — 1 Cr 13–13. Seu nome significa servindo Edom ou servo de Edom; no devido tempo ele entrou na ordem do Tabernáculo Davídico. Desta forma, a participação de hebreus e gentios foi devidamente estabelecida.
O efeito desse grande feito de Davi, orientado por Deus, teve várias implicações positivas. Além do exposto acima, em que povos de toda a terra poderia louvar ao Senhor, podemos afirmar que o livro de Salmos foi um grande presente deixado como um legado de uma geração que ministrou incessantemente diante da Arca do Senhor, e que nos deu um catálogo de canções que são a verdadeira expressão da relação entre música e profecia, as quais queimam em nossos corações até hoje. É importante relatarmos que “o período correspondente a Davi e Samuel foi a época de maior esplendor da poesia e da música em Israel”. Tabernáculo de Davi, página 82.

Hoje não temos habilidades para decifrar como seria a música tocada no período em que os Salmos foram escritos, nosso objetivo aqui, exponho, não é este. Não temos a intenção de mostrar como era a performance dos músicos, qual era a composição musico-instrumental das equipes etc; mas vale ressaltar que há grupos, hoje, que estudam o resgate das linhas melódicas, com instrumentos harmônicos e percussivos da época, é o caso do grupo Yamma Ensemble. Certamente há estudos musico-histórico sobre o tema, valeria a pena estudarmos posteriormente; mas o que está próximo a nós, em termos de registro, ou seja, as composições de Salmos, ja nos dá dimensões de como aquele ambiente, adoração 24 horas por dia — 7 vezes por semana, funcionava.

Cabe ressaltar que, de todos os fatores positivos registrados em Salmos — canções que falam do intimo, do âmago da alma humana, das declarações de amor ao nosso Deus e honra ao Eterno — o que mais salta ao nossos olhos, quando relacionamos música e profecia, é o apontamento cristológico que essas canções evidenciam. Aquele ambiente de profunda adoração gerou músicas que falavam dos Messias cerca de mil anos antes — salmos 2, 8, 22, 23 e muitos outros.
Por fim, para fecharmos esse período de análise sobre p Tabernáculo de Davi, e sua relação entre música e profecia, há de ressaltarmos um fator importante dentro dessa dinâmica: o ambiente de Salmos, da adorações diante da Arca do Senhor, foi um protótipo de uma adoração celestial que só será descrito em Apocalipse, quando João é inspirado para revelarmos o tempo do fim. Isso prova, como descrito no livro From silente to song — de Peter J Leithart — a inovação da liturgia davídica fora baseada em revelação [tradução livre]

A adoração começou na Eternidade, continua na história dos redimidos e permanecerá para todo o sempre

A música no Novo Testamento
Após a vinda do Senhor Jesus, muitos ritos foram abolidos, mas a expressão musical em adoração ao Senhor permaneceu atuante. Há inúmeras passagem de referência aos cânticos de louvor a Deus.

Vejamos:
Em 1 Cor 14.26 Paulo incentiva a Igreja a compartilhar os Salmos — o termos do grego salmos significa “uma peça musical ou ode sacra”, acompanhada por vozes, harpas ou outros instrumentos.

Tiago 5.13 incita-nos a salmodiarmos, em que em outras traduções está descrito cantando louvores. Paulo e Silas cantaram louvores (hymneo) a Deus e o próprio Senhor operou no meio do louvor deles. O carcereiro e a sua família foram salvos naquele dia.

Em 1Cor 14.15 cantarei com espirito mas também com o entendimento. Poderíamos listar mais várias outras passagens que nos revela a ação dos louvores dentro no contexto do Novo Testamento, mas com esses expostos acima já nos traz a consciência de que a musica não esteve presente somente no templo, mas também seguiu a igreja conforme seu crescimento.

Orientações práticas:
Gostaria de prosseguir com esse estudo expondo orientações práticas que tento seguido durante os dez anos caminhando com o Senhor e servindo a Igreja na dinâmica musical.

Eu creio que a primeira coisa que o musico/compositor/ministro de louvor deve ter em mente é que precisamos de MUITA atenção para o que Deus está fazendo, ao produzirmos canções para a Igreja. Pois, assim, não cometeremos o erro de cantarmos somente sobre as nossas experiências, nossas dificuldades etc. não estou dizendo que músicas que abordam temas de experiências pessoais não sejam válidas, mas que é necessário equilíbrio, pois é comum ouvirmos muitas canções que abordam experiencias pessoais e poucas que falam sobre o próprio Cristo: seu favor; sua obra na terra; seus atributos. Por isso queria expor apelo a canções mais cristocêntricas em nosso meio.

Eu só falo e produzo sobre o que eu conheço. Essa é também orientação que sigo em minha vida, e acho extremamente importante para os artistas no meio cristão. Por isso, creio que a busca constante na verdade do evangelho é inerente e essencial ao musico que quer crescer em Sabedoria e Revelação ao Senhor.

Nosso relacionamento com Deus precede a nossa técnica como músico. Primeiro precisamos ser achados dignos de entregar sacrifícios de louvor a Deus, posteriormente devemos analisarmos aonde devemos crescer na área técnica, musical. Esse assunto é extremamente paradoxal: boa técnica não significa mais presença de Deus, mas, sim, uma habilidade mais apurada aos olhos humanos; uma qualidade musical elevada aos nossos ouvidos. Por outro lado, observamos que a técnica ajuda a expressar bem as emoções, em geral, e, consequentemente, traduzir o que Deus quer comunicar.
Acho que cada um de nós ja esteve diante de um momento em que questionamos a habilidade de uma performance musical de alguém, ainda mais quando essa pessoa atrai de modo denso e real a presença do Altíssimo. Por isso, creio que relacionamento com Deus precede a busca pela melhor performance. Mas uma coisa não anula a outra.

É comum observar os músicos confundindo o repúdio ao aperfeiçoamento pessoal com a não preparação de um bom serviço de ministração a Deus: ensaiar é extremamente necessário, ele não anula o fato de Deus agir da forma como quiser, e mudar todos os planos, no momento do Culto, por exemplo, mas a nossa obrigação é, sim, estarmos prontos para a direção de Deus, até mesmo na escolhas prévias de canções que antecedem o culto.

Outra orientação que eu trago comigo sempre é que nós, músicos, não podemos andar sozinhos. A música, em si, já é um protótipo de como devemos nos relacionar com o outro: ela é algo completamente comunitária, grupal e essencialmente relacional. Nós, como partes do Corpo de Cristo, somos liderados e submissos a homens que falam em nossa vida. É preciso estarmos livre de toda insubmissão para ouvirmos conselhos dos santos da Igreja, visando nosso aperfeiçoamento pessoal. Esse crescimento pessoal influenciará, também, a nossa maneira de adorarmos a Deus.

A música é uma arte extremamente versátil, ela migra entre áreas de conhecimentos, áreas terapêuticas, áreas artísticas de modo muito livre. Mas ela precisa ser muito bem definida em nossa área cristã, quando estamos inseridos verdadeiramente nesse meio: a música, em um ambiente de culto a Deus, não é um mero produto comercial, reduzida ao entretenimento, ela é sim uma qualidade de Deus, dada ao homem para que possamos retribuir, de modo serei e intenso, tudo que o Senhor tem feito pelo humanidade com o passar das gerações.

Indicações de livro
Foram lidos alguns livros e assistido lives para confecção desse estudo. Gostaria de indicar, como leitura, dois livros: From silente to song — de Peter J Leithart; esse livro é de extrema importância para entendermos a perspectiva de Davi, ao instituir o ministério de música, no Tabernáculo, e também o livro Tabernáculo de Davi, Kevin J Conner, que é, realmente, uma pedra preciosa para quem quer mergulhar na relação entre música e a perspectiva do Reino de Deus. Esses dois materiais são densos e requer um tempo de estudo. Confesso que não cheguei nem perto de destrincha-los em sua totalidade, mas, com o tempo, creio ser eles de muita valia para quem quer aprender sobre o tema. Assisti, também, a live do Fabio Coelho e Ruan — Vozes e Trovões — falando sobre Música e Profecia.

Relato pessoal:

Em 2017, eu morava no Rio Grande do Sul, região temperada em um país conhecido como tropical, quando, ao decidir ir tomar um café na casa de um amigo, eu me deparei com a sua pergunta, você sabia que na bíblia houve um momento em que os músicos foram chamados de músicos profetas? Depois daquela pergunta eu fui tomado por um assombro gigantesco, lágrimas jorravam do meu rosto e meu coração fervia. Isso porque, dias antes, eu estava totalmente perdido sobre o que fazer entre minha arte e minha conversão.

Fora naquele momento que eu entendi profundamente minha missão aqui na terra: expressar a intenção de Deus através do que ele mesmo me comissionou a fazer: a música.
Ali, eu percebi que todos os anos de esforços tentando ser um músico conhecido, estudar numa grande universidade e viver confortável da minha arte aconteceu por um propósito, não para concretizá-los, mas para me impulsionar a estar exatamente aonde eu estava naquele momento, de frente para aquele meu amigo.

Eu entendi o sentido da minha vida, a direção para onde ela estava me levando e aonde eu deveria chegar.
Nessa trajetória, eu entendi que meu som é profético, e que ele deve expressar as coisas que estão por vir. Deus me mostrou que as músicas que eu antes tocava expressava as coisas que aconteceram, mas ele estava me separando para produzir um som que expressa o por vir. Ele também revelou que a música discipula/orienta uma geração, e que eu estava conduzindo um povo para o pecado, quando estava exercendo minha arte no mundo, e que agora eu estou comissionado a levar uma geração a santidade.

Essa forma de pensar revolucionou a maneira de me expressar no instrumento; a consciência da importância de ministrar ao senhor moldou minha maneira de ser e me fez amar ainda mais a minha Arte, pois agora ela não é mais um fim, mas um meio pelo qual eu me ofereço para conduzir o povo de Deus em favor de seu propósito.
AMÉM

Marivaldo Lima — É baterista, Serve na Comunidade do Rei, São Gonçalo, RJ.

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